Com a Palavra os Botafoguenses

“A Gente Somos Polêmico”

Por Sidney Puterman, jornalista e publicitário

Foto Sidney PutermanFutebol é paixão. Por isso se tornou o bilionário mercado mundial que é hoje. No lançamento da ESPN nos Estados Unidos, nos idos da década de 80, a proposta dos investidores era tornar o basquete o esporte de maior apelo mundial. Futebol não tinha espaço na grade montada pelos ianques. Perderam. Nos anos 90 os caras do esporte na tv americana, todos eles especialistas em fazer dinheiro, perceberam que o futebol é que era o tal. Destronaram o basquete e os campeonatos de futebol da Europa se tornaram o grande produto. Foi a partir daí que o mercado europeu encheu containers com nossos jogadores e os fabricantes de material esportivo pagaram fortunas para vincular suas marcas a cada um deles. Na virada para o século 21 o presidente da CBF captou uma baba para a entidade. Ele e o sogro estavam ligados no caminho da grana.

O dinheiro manda. No primeiro mundo o que vale é o crescimento do negócio. Não aqui. Os erros da auxiliar de juiz jogam fora o capital investido por um grande clube e impedem a captação de mais dinheiro pelo negócio em si. A final da Copa do Brasil não será novamente mídia nacional, com a reedição centenária do clássico que em 2007 completaria um século de rivalidade, o Fluminense x Botafogo. Que geraria recursos, extrema visibilidade e oportunidade de negócios para emissoras, jornais, profissionais da mídia, indústrias esportivas, anunciantes, clubes, atletas, comerciantes, vendedores de bandeira no sinal, fabricantes de faixas de cinco pratas. Todos esses vão ter muito menos dinheiro pra fazer a feira.

O formato em vigor joga dinheiro fora. Desperdiça o faturamento de hoje e come um pedaço do que seria ganho amanhã. A aceitação, por banal, e a conivência com os erros criou um deformado padrão de conduta. Jogadores que antes aprendiam a dar uma caneta no contrapé do zagueiro hoje ficam à espera do primeiro contato físico para se jogarem no chão. Desenvolvem o “tempo da trombada” para interromper o jogo e cobrar do juiz uma penalidade favorável. O “craque” agora não procura mais driblar o goleiro, e sim bater com o bico da chuteira na bola e isolá-la na bandeira de escanteio, desde que conquiste o choque (sem a bola, que a essa altura estará no raio que nos parta) e o pênalti. Do cacete.

É só um exemplo. Os juízes acabam por refletir o povo e o país, “duela a quem duela”, diria o hoje senador Collor. Arbitragem, dirigentes e mídia esportiva são medíocres na apologia e celebração de resultados desvirtuados pelo erro. E o erro – e a própria possibilidade da sua existência – aqui é incensado. Premiou o infrator? Dane-se. Vêem nele apelo para uma pretensa “polêmica” e acham genial. Mas, que polêmica? Ela ficou na era do rádio. A evidência televisiva gerou consenso e eliminou a polêmica. Só ficaram a incompetência e a desonestidade, que ninguém sabe onde começa uma e termina a outra. Favorece os mal-intencionados. Você é e gosta que as coisas sejam assim? Bem-vindo. Você está no lugar certo.

Nesse cenário complexo, mais uma grande exibição do Botafogo fica (e merece ficar) em segundo plano. A boa máquina de jogar bola montada pelos dirigentes e pelo técnico Cuca não tem espaço e não gera dividendos só jogando bola, que é o que ela sabe fazer. Assim, o Dodô deve voltar pra Coréia, o Lúcio Flávio pra reserva do Paraná, o Jorge Henrique pro Santa Cruz, o Túlio pro Japão, o Alex pro Santo André, o Leandro pra Santa Catarina, o Bebeto pra treinar time de vôlei. O Cuca não ganha nada e por isso não vale nada. Quem sabe com times medíocres o Botafogo não conquista um títulozinho fuleiro, de preferência com uns equívocos da arbitragem. Vai vender menos jornal, menos camisas, menos pay-per-view, menos ingressos, gerar menos renda, menos salário, mas, que se estrepem! Pelo menos a polêmica e o caldo em que ela se desenvolve – de imprecisão, incompetência e desonestidade – permanecem aí, para o deleite dos que sabem aproveitá-lo. Na nação miserável que, roubada, exalta o rouba-mas-faz, tá tudo em casa.

Para quem não joga nesse grupo as alternativas passam pelo trabalho honesto e planejado. E que precisa de um ambiente favorável à geração de receita. Os resultados devem refletir o que aconteceu em campo. O futebol já é por demais imprevisível para que a “arbitragem” o torne absolutamente imponderável. Juízes melhores, métodos de acompanhamento, punição e exclusão que funcionem, justiça esportiva comprometida com o sucesso da operação e não com regrinhas e omissões de súmula. Valem a lisura e o bom-senso; e a percepção de mercado. A paixão clubística daninha, do quanto pior melhor, de ter mais prazer na desgraça alheia do que no próprio sucesso, mantém todos no buraco – uns na parte de cima, outros na de baixo, mas todos no mesmo buraco.

Que as “derrotas” do Botafogo não sejam em vão e evitem derrotas injustas e prejuízos irrecuperáveis para Flamengo, Vasco, Fluminense, América, CFZ, etc. Construamos antes um sistema que abomine os erros e os tratem como tecido necrosado que são. Quanto maior a confiabilidade do modelo, mais recursos ele estará apto a conquistar. O nosso não é confiável e precisa melhorar, enquanto é tempo, e resolver se queremos ou não ganhar dinheiro de verdade em um dos pouquíssimos mercados em que temos potencial para fazer parte da elite mundial. Em todo o resto somos a raspa do tacho – e não dá pra nós, mesmo.

Aqui Oswaldo Cruz foi vacinar a população para nos proteger da peste e quase foi linchado. A ameaça da vacina era polêmica e fez a cidade pegar em armas contra o doutor. Nas ruas, bondes de ponta-cabeça se tornaram barricada contra a seringa maldita.

É isso. A Revolta da Vacina é a cara do Brasil.

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