O Debate Cresce: A Copa do Mundo no Brasil em 2014… E a Internet em 2014?
Reportagem Especial, Cristina Dissat
O Brasil será a sede da Copa do Mundo 2014. A imprensa brasileira se mobilizou para passar as informações com bastante rapidez. Nós, do Fim de Jogo, preparamos uma matéria especial que entrou exatamente no dia 29 de outubro, logo após o comunicado oficial.
Contamos, nessa reportagem, com duas importantes participações: os jornalistas Mário Cavalcanti e Bruno Rodrigues. Nossa curiosidade ia além da decisão da FIFA, porque envolve muito mais do que o futebol e, por isso, levantamos a discussão. Além do debate, não dava para deixar de comemorar essa notícia, já que nosso foco, desde 1 de fevereiro de 2004, é o Maracanã.
Teremos o jornalismo cidadão, transmitiremos informações da rua com palmtops ou smartphones ou alguma nova engenhoca incrível?
Lançamos a pergunta e fui atrás de algumas respostas: Como estará a internet em 2014 para a cobertura da imprensa para a Copa do Mundo?
Para nossa alegria, tivemos grandes nomes da internet brasileiras, dando continuidade ao debate.
Relembrando… A Visão dos Primeiros Convidados
Para Bruno Rodrigues, jornalista, autor do primeiro livro sobre webwriting e colunista do Webinsider e Revista Webdesign, a Rede estará menos desktop e mais mobile. “Daí, para aproveitar, participar e cobrir uma Copa do Mundo, será uma maravilha! A web irá se tornar, de vez, a mídia de todos, em que texto, áudio e vídeo servirão como mix de apuração e impressão individual. O muro da tecnologia cairá definitivamente; qualquer programa, funcionalidade ou gadget que não se auto-explicar estará morto ao chegar.
Na visão do jornalista Mario Cavalcanti, fundador e diretor executivo do site Jornalistas da Web (JW), em termos de cobertura jornalística, o aproveitamento cidadão por parte de veículos de comunicação já será uma prática mais que estabelecida em qualquer sociedade. “Novos rostos surgirão, fazendo frente aos apresentadores de telejornais e artistas convidados para comentarem eventos. Mas, o mais interessante serão as possibilidades de aprofundamento de discussões e propagação de opiniões disponíveis. Pessoas comuns poderão retransmitir eventos em tempo real e com qualidade de TV digital para o público em geral ou para um grupo específico. A narração e o ângulo de cada espectador-emissor representarão um diferencial nunca antes visto, que talvez só se compare aos dos “detentores de transmissões especiais” (novo nome para o que antes era chamado de “detentores de direitos de transmissão”, termo obsoleto em 2014, já que, por direito, qualquer cidadão pode transmitir).
Os Novos Entrevistados
Para a jornalista, profa.da PUC-SP e pesquisadora em hipermídia, Pollyana Ferrari, idealizadora do coletivo www.remixnarrativo.blogspot.com , em 2014, teremos uma Web com cenário híbrido para a Copa do Mundo no Brasil. “Vou explicar melhor: de um lado o velho Galvão Bueno, transmitindo os últimos lances, já num padrão HDTV, mas com o mesmo linguajar de 2007, com a companheira Fátima Bernardes e seus trigêmeos (já jovens), que poderão entrar no gramado do Maracanã, durante a entrada ao vivo da mãe-musa do futebol brasileiro global. Em contrapartida, pessoas comuns poderão retransmitir eventos em tempo real e com qualidade de TV digital para o público em geral ou para um grupo específico. Acredito que o celular será o grande formato da Copa. Imagina que qualidade de celular teremos em 2014? Cada espectador, nas diversas arquibancadas dos estádios brasileiros, poderá ser comparado aos “detentores de transmissões especiais”, que em 2014, especula-se que a Record, do Bispo, terá comprado o direito de transmissão exclusiva. Não podemos esquecer dos blogs, formato que deverá estar mais do que adotado pela grande mídia, da força de patrocinadores como a Nike, que vislumbram muitos SMS, vídeos e estádios/comerciais no país de Pelé. A última Copa foi a Copa dos blogs, pois em 2014 será a Copa do José, do Raimundo, do Luís, da Maria. A Copa dos anônimos.”
André Lemos, professor associado da Faculdade de Comunicação da Bahia, PhD em Sociologia pela Université René Descartes, Sorbonne, respondeu a entrevista do Canadá, onde está trabalhando atualmente como professor visitante. Ele acredita que as tecnologias estarão definitivamente na fase de sua conexão móvel. “Objetos trocarão informações locativas de forma quase que independente. Formas de vigilância e de controle crescerão também com essas tecnologias. Acho que teremos sistemas mais robustos e mais precisos de indexação de informação no espaço físico e formas mais simples e ágeis de receber e enviar informação em tempo real, em mobilidade, em dispositivos portáteis: e não só conteúdo partindo dos jornalistas para as suas centrais, mas de centrais para os cidadãos e dos cidadãos entre eles… Talvez os micro blogs (jaiku, twister ou algo similar) permitam uma maior mobilidade informacional e o controle nas formas de envio e recebimento da informação. Acho que dispositivos como smartphones estarão disseminados e serão o que tenho chamado de “DHMCM” (dispositivos móveis de conexão multirrede) e não mais “telefones”.
A Participação da Comunidade Fim de Jogo
Andrezza Carvalho, que participou do debate no Fim de Jogo, vê o futuro de forma muito integrada.“Espero, sinceramente que, diferente de todas as formas de inclusão, a internet seja a rede que realmente vai integrar as pessoas de uma forma mais única. Concordo com o Bruno Rodrigues quando fala que a internet vai possuir uma característica mais móvel e isso é totalmente possível, através do avanço dos celulares no Brasil. Acredito que teremos muita gente assistindo aos jogos no aparelhinho.”
O jornalista José Roitberg, após ler as considerações do colega Mario Cavalcanti, disse que restava uma sensação. “Ao mesmo tempo teremos a tecnologia para qualquer pessoa transmitir vídeo e comentar de dentro dos estádios através de um celular. Tenho a certeza de que os detentores dos direitos de transmissão vão meter um bloqueador de celular, cuja tecnologia vai evoluir também, inviabilizando a democratização da produção de informação. Na Copa passada, tínhamos no escritório três fontes para ver os jogos: TV aberta, TV por satélite SKY e pela internet, através do Globo Media Center em wide-screen. Era muito curioso perceber a diferença de tempo que a informação levava para passar por todos os circuitos de cada sistema e chegar à tela. Em 2014 a banda da web estará muito veloz e a disputa será feroz com a TV digital que já estará implantada. Creio que a grande diferença, iniciada na Copa anterior, será a de que mais pessoas irão permanecer no trabalho durante os jogos, assistindo individualmente em seu computador, em monitores grandes, numa janelinha separada de seus “octa-cores”. Enquanto isso, continuam fazendo outras tarefas e aquela sensação de conexão com estranhos, de irmandade - de comunidade, que só há quando um monte de gente fica na calçada assistindo os jogos nas TVs de lojas e bares - vai perder espaço. Afinal, dos 75.000 ingressos do Maracanã, quantos serão destinados a um país de com uns 200 milhões de habitantes à época?
Para André Rosa, que atualmente é responsável pela gerência de Cursos do Comunique-se, serão mais de cem milhões conectados ou bem mais. “Assim como nos dias de hoje, pessoas estarão num pé de evolução tecnológica, experimentando o que está na crista da onda (busca semântica, web 4.0 ou qualquer produto batuta inexistente agora, mas popularíssimo no futuro). Gerações 100% conectadas e colaborativas estarão borbulhando. Paralelamente, Dona Marocas, 45 anos, que passou sua vida inteira ‘consumindo informação’, vai descobrir pela primeira vez como é divertido participar. E esse abismo educacional, doença crônica de nosso país há cinco séculos, não vai mudar em cinco anos (espero errar aqui)”.
André escreveu um artigo, do qual extraí o trecho acima (com a sua permissão), brincando com as possibilidades do futuro. E como ele mesmo diz, tudo é uma questão de chute ou palpite, com grandes chances de alguns equívocos, mas esse exercício de imaginar o trabalho dos jornalistas daqui há alguns anos é divertido e assustador. E em um dos trechos do artigo ele brinca: “Lembre-se que, nos anos 60, um cururu da IBM viu o primeiro computador e disse: pra quê alguém vai querer um desses?”.
Sergio Issamu, um dos visitantes assíduos do Fim de Jogo, também participou. “Sem querer ser pessimista, mas acho a visão do Bruno Rodrigues e Mário Cavalcanti é um pouco exagerada. A web como a conhecemos (pós windows), existe a mais de dez anos. Somente há um ano o YouTube virou febre. E estamos longe de ter transmissão de qualidade pela web. Conexão por fibra ótica é rara em muitos paises. E conexão por rede sem fio? Coitado de nós. As grandes corporações infelizmente dominam esse quintal chamado Brasil. E elas por enquanto não querem saber desse negócio de “Novos rostos”. Espero sinceramente que eu esteja completamente errado.
O jornalista Marcelo Sander imaginou um pouco além. Ele brinca e gosta do exercício de futurologia. “Penso que a Copa de 2014 poderá ser transmitida via streaming, de qualquer dispositivo móvel pela web, em tempo real, para qualquer desktop, TV Digital ou outros dispositivos móveis (celulares, palms, etc). Imagina só o Fim de Jogo com 10 voluntários, cobrindo os jogos com celulares e transmitindo tudo ao vivo. A Cristina, do seu escritório, interagindo com seus repórteres, via streaming com áudio e vídeo e fazendo a edição das imagens ao vivo, entrevistando o público presente no estádio, recebendo comentários dos internautas-expectadores… Quem sabe até mesmo os internautas-expectadores, selecionando de qual celular/ângulo querem ver o jogo e depois votando nas melhores imagens… Viajei”.
Além do gostoso exercício de futurologia feita por todos os entrevistados – vamos guardar esses dados para comparar em 2014 – o mais importante foi a participação sem restrições e a nítida sensação de contribuir para o debate.
Apesar das agendas cheias, recebi as respostas em um tempo muito curto. Obrigado Mário, Bruno, André, Pollyana, Roitberg, Andrezza, Issamu e Marcelo.
domingo 02 dez 2007 5:17 pm | Cristina Dissat | Copa do Mundo 2014

